O sonho da vacina contra o câncer pode se tornar realidade?
O câncer é uma doença caracterizada pelo crescimento descontrolado de células anormais, formando tumores que podem invadir tecidos adjacentes. De acordo com a American Cancer Society (sociedade americana do câncer), estimou-se que em 2025 surgiriam cerca de 20 milhões de novos casos da doença, causando cerca de 10 milhões de mortes. No Brasil, as estimativas feitas pelo Instituto Nacional de Câncer (INCA) para o período de 2023 a 2025, apontaram que surgiram 704.000 casos de câncer a cada ano (excluindo câncer de pele não-melanoma).
As vacinas terapêuticas para o câncer têm sido buscadas há muito tempo, mas historicamente tem uma baixa eficácia clínica. Essas vacinas contra o câncer envolvem a entrega de um antígeno para as células imunes de órgãos linfóides secundários, que armazenam e ativam linfócitos para combater patógenos, no caso, as células tumorais. Por muito tempo, as vacinas visavam antígenos que poderiam ser expressos pelas células, mas esses antígenos também são expressos por tecidos saudáveis, limitando a especificidade e a eficácia desse tipo de vacina.
Apesar desses desafios, os recentes avanços nos métodos de identificação e seleção de antígenos a serem direcionados em vacinas contra o câncer têm sido observados, assim como novas tecnologias para fornecer esses antígenos de forma eficaz para estimular uma resposta imune e novos tipos de ensaios estão mostrando resultados promissores em ensaios clínicos em estágio inicial.
No caso das vacinas de mRNA, os principais desafios para sua eficácia estão relacionados à entrega eficiente e ativação das células imunes certas no local correto; e é aí que a nanotecnologia entra! Estudos recentes têm mostrado que os tumores apresentam “neoantígenos” (antígenos específicos de células tumorais) que surgem devido às mutações das mesmas.
Os nanocarreadores à base de lipídios surgiram como uma estratégia de formulação líder para a entrega eficaz de mRNA. As nanopartículas permitem co-entregar os antígenos tumor-específicos juntamente com moléculas que estimulam o sistema imune de forma organizada e eficiente, reduzindo efeitos adversos, já que esses nanomateriais podem ser projetados para acumular preferencialmente em órgãos linfóides, por exemplo, como esquematizado na Figura 1.

Figura 1: Esquema de atuação da nanopartícula na resposta imune especializada.
Fonte: elaborado pela autora (2025)
As nanoplataformas podem apresentar múltiplas cópias de antígenos, imitando vírus ou partículas humanas, o que favorece uma resposta imunológica mais “forte” ao mesmo tempo que melhora a biodistribuição, já que esse material pode ser revestido por materiais biomiméticos, que impedem que esses transportadores sejam atingidos por mecanismos de eliminação. Essa tecnologia permite que antígenos específicos a cada tumor sejam encapsulados, viabilizando um tratamento personalizado a cada paciente.
Os avanços na nanotecnologia têm se mostrado essenciais no avanço clínico das vacinas contra o câncer. No entanto, ainda há uma série de desafios a serem enfrentados para usufruir desse progresso. A seleção de antígenos para vacinas personalizadas é um dos maiores deles. Mesmo assim, vemos que a nanotecnologia torna o sonho da vacina contra o câncer mais próximo!
Para saber mais, acesse: https://www.nature.com/articles/s41565-025-02021-z
