Como a nanotecnologia pode mitigar os efeitos das mudanças climáticas no campo agrícola?
As mudanças climáticas representam um dos principais desafios para o mercado agrícola atual. O aumento da temperatura média do planeta, a alteração dos regimes de precipitação e a maior ocorrência de eventos climáticos extremos comprometem diretamente o desenvolvimento das culturas agrícolas, favorecendo também a disseminação de pragas, ervas daninhas e doenças. Ao mesmo tempo que é uma vítima, a agricultura convencional contribui para o agravamento desse cenário por meio da utilização intensiva de fertilizantes minerais e herbicidas e pesticidas sintéticos, cujos impactos incluem a emissão de gases de efeito estufa e a contaminação do solo e de recursos hídricos. Devido às suas dimensões reduzidas, variando entre 1 e 100 nm, as nanopartículas apresentam propriedades físico-químicas que favorecem sua interação com tecidos vegetais, permitindo que nutrientes e compostos bioativos sejam liberados de maneira mais precisa e controlada, em comparação às formulações convencionais.
Nesse sentido, pesquisadores da Itália, Paquistão e Irlanda reuniram os principais avanços da nanotecnologia aplicada à agricultura como estratégia para mitigar os efeitos das mudanças climáticas e promover sistemas agrícolas mais sustentáveis.
Considerando os impactos ambientais decorrentes do uso excessivo de fertilizantes, os pesquisadores destacam os nanofertilizantes como uma das aplicações mais promissoras da nanotecnologia na agricultura. Diferentemente dos fertilizantes tradicionais, que frequentemente sofrem perdas por lixiviação e volatilização antes de serem absorvidos, essas nanoformulações promovem a liberação gradual de nutrientes, aumentando a eficiência de absorção pelas raízes e reduzindo desperdícios e custos. Além disso, nanopartículas contendo elementos como zinco, ferro magnésio, manganês e silício (Figura 1) têm demonstrado potencial para estimular o crescimento vegetal, aumentar a atividade fotossintética e conferir maior resistência das plantas a condição de estresse como: seca, salinidade e altas temperaturas.

Fonte: Quintarelli et al. (2024).
Outro importante campo de aplicação corresponde aos nanoherbicidas e nanopesticidas. Assim como ocorre com os nanofertilizantes, essas formulações permitem que os princípios ativos sejam liberados de forma controlada e direcionada, reduzindo a quantidade de produto necessária para o controle de ervas daninhas, insetos e patógenos. Diversos estudos analisados pelos autores mostram que nanopartículas produzidas a partir de materiais como quitosana, prata, zinco e biochar apresentam resultados promissores no manejo agrícola, aumentando a eficiência dos defensivos e reduzindo o acúmulo de resíduos químicos no ambiente.
A nanotecnologia também tem sido explorada para as fases de pós-colheita de alimentos. Nanoemulsões e revestimentos contendo nanopartículas vêm sendo desenvolvidos para aumentar o tempo de conservação de frutas, hortaliças e grãos, reduzindo perdas durante as etapas de transporte e armazenamento.
O armazenamento e o processamento de culturas agrícolas podem ser afetados, dentre outros fatores, por micotoxinas, uma das quais, produzida por espécies de Aspergillus, é chamada de aflatoxina, um composto carcinogênico e teratogênico, sendo perigoso para a saúde humana e animal. Nesse contexto, algumas nanopartículas magnéticas, graças à sua natureza metálica, apresentam atividade antimicrobiana, sendo capazes de se ligar a micotoxinas e neutralizá-las. Isso demonstra que a nanotecnologia pode atuar não apenas no aumento da produtividade agrícola, mas também na melhoria da qualidade e da segurança dos alimentos de consumo humano e animal.
Embora os avanços observados na última década sejam promissores, a aplicação dessas tecnologias ainda demanda estudos adicionais mais aprofundados. Questões relacionadas ao comportamento à longo prazo das nanopartículas no solo, ao potencial de bioacumulação e aos possíveis impactos sobre organismos não-alvo ainda precisam ser melhor compreendidas para garantir a ampla utilização desses materiais.
O tamanho, composição química, concentração e método de aplicação influenciam diretamente a eficiência e os possíveis efeitos ambientais das nanoformulações.
Portanto, apesar dos desafios ainda existentes, é evidente que a nanotecnologia reúne características capazes de contribuir significativamente para uma agricultura mais sustentável e resiliente mediante às mudanças climáticas, ao permitir a utilização mais eficiente de fertilizantes, herbicidas e pesticidas, além de favorecer a conservação pós-colheita dos alimentos. Sendo assim, o desenvolvimento de novas pesquisas será fundamental para ampliar o conhecimento e possibilitar uma aplicação segura e eficiente desses materiais nos sistemas agrícolas no futuro.
Referências:
QUINTARELLI, Valentina et al. Advances in Nanotechnology for Sustainable Agriculture: a review of climate change mitigation. Sustainability, v. 16, n. 21, p. 9280, 2024. Disponível em: https://www.mdpi.com/2071-1050/16/21/9280.
