Nanopartículas são a cura para o HIV?
Um dos maiores obstáculos para a cura do HIV1 é a persistência do vírus integrado em glóbulos brancos, especificamente linfócitos T CD4+, em estado de latência. Em 2023, cerca de 39,9 milhões de pessoas no mundo eram portadoras do HIV e aproximadamente 630 mil mortes relacionadas à AIDS2 foram registradas. Apesar da existência de tratamentos, como as terapias antirretrovirais, elas não são capazes de eliminar o vírus, sendo um método vitalício e não curativo. Diante desse cenário, uma das estratégias em estudo para a cura da infecção por HIV consiste em reativar a transcrição do vírus, de modo a tornar as células infectadas “visíveis” ao sistema imunológico e, assim, induzir a morte dessas células e reduzir o reservatório viral. No entanto, tentativas anteriores envolvendo agentes de reversão de latência (LRAs) de primeira geração tiveram pouco sucesso, pois apresentaram baixa especificidade e efeitos colaterais indesejados. Para superar esses desafios, pesquisadores da Universidade de Melbourne (Austrália) desenvolveram uma nanopartícula lipídica de RNA, chamada LNP X (Figura 1), capaz de fornecer RNA a células T CD4+ e reverter a latência de forma específica para o HIV.
Nos experimentos realizados, os cientistas verificaram que a nova nanopartícula apresentou desempenho inédito. O LNP X alcançou taxas de transfecção superiores a 75%, ou seja, conseguiu introduzir material genético em T CD4+, sem a necessidade de ativação prévia dessas células e sem causar toxicidade. Esse é um dos pontos cruciais do estudo, uma vez que métodos anteriores dependiam de ativar artificialmente os linfócitos para permitir a entrada de RNA, o que alterava o estado natural das células e aumentava o risco de efeitos adversos, dificultando aplicações terapêuticas abrangentes e seguras. Além disso, um ensaio realizado pelo grupo mostrou que a nanopartícula foi eficiente em encapsular o RNA do HIV Tat, uma proteína que estimula a transcrição viral. Com isso, observou-se um aumento de até 17 vezes do RNA viral liberado no meio extracelular, superando inclusive o padrão-ouro de reativação utilizado em laboratório. Outro estudo importante foi a demonstração de que o LNP X pode co-encapsular e entregar sistemas mais complexos, como o CRISPRa direcionado ao promotor do HIV, capaz de induzir a transcrição de forma mais específica. Nesse caso, porém, a potência foi menor que a do Tat-LNP X e não houve liberação significativa de vírus detectável.
O estudo mostra que o LPN X é uma solução inédita para entregar RNA para células T CD4+ em estado de latência ou repouso. O Tat-LNP X se destacou como o agente mais eficaz de reversão da latência já descrito, superando métodos tradicionais sem causar ativação celular. Já o CRISPRa-LNP X comprovou a viabilidade de terapias mais direcionadas e específicas, ainda que com eficácia mais baixa. De modo geral, os resultados sugerem que o LNP X pode abrir caminho para o desenvolvimento de novas terapias contra o HIV, combinando a reativação da latência com mecanismos adicionais que favoreçam a eliminação das células infectadas.

Figura 1: Representação esquemática da formulação de LNP X encapsulando RNA. Adaptado de Cevaal et al. (2025).
1. Vírus da Imunodeficiência Humana.
2. Síndrome da Imunodeficiência Adquirida.
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