Avanço significativo no tratamento contra o câncer: nanopartículas biodegradáveis permitem a administração simultânea de dois medicamentos para atacar tumores
O câncer é um conjunto de doenças ocasionada por diversas mutações no DNA, ocorrendo nas células de forma desordenada e muito rápida. Essas células alteradas, agora chamadas de cancerígenas, proliferam até que o conjunto dessas mutações forme um tumor. Uma vez formados, os tumores exigem tratamentos que visam destruir essas células para controlar a doença e aliviar seus sintomas. Um dos tratamentos mais utilizados é a quimioterapia, a qual consiste no uso de medicamentos via oral, intravenosa ou injetável que atuarão em todo corpo podendo afetar, também, células saudáveis. Consequentemente, ao afetar as células saudáveis, a medicação se torna extremamente invasiva prejudicando a qualidade de vida do paciente no decorrer do tratamento.
Pesquisadores da Universidade de Tel Aviv desenvolveram uma nova plataforma de tratamento utilizando nanopartículas poliméricas para administrar pares de medicamentos a tipos específicos de câncer, como câncer de pele e câncer de mama. Os pesquisadores explicam que a chegada simultânea dos dois medicamentos ao local do tumor amplifica significativamente seus efeitos terapêuticos e perfis de segurança. De acordo com os autores, mesmo que vários medicamentos sejam administrados simultaneamente, eles não chegam juntos ao tumor, devido às diferenças de suas propriedades químicas e físicas, fazendo com que seus efeitos combinados não sejam totalmente percebidos. Para garantir a máxima eficácia e a mínima toxicidade, esses pesquisadores buscaram uma maneira de administrar dois medicamentos simultaneamente e seletivamente ao local do tumor, sem prejudicar órgãos saudáveis.
Os pesquisadores desenvolveram nanopartículas poliméricas biodegradáveis (que se decompõem em água e dióxido de carbono em apenas um mês) capazes de encapsular os fármacos Dabrafenibe (BRAFi) e Trametinibe (MEKi) que, além de inibirem o crescimento das células cancerígenas, potencializam a atividade um do outro. Essas nanopartículas são guiadas seletivamente até o local do câncer, interagindo com grupos sulfato que se ligam à P-selectina, uma proteína expressa em altos níveis nas células cancerígenas, bem como nos novos vasos sanguíneos formados por elas, para fornecer nutrientes e oxigênio.
Esse novo sistema de administração de medicamentos foi testado em dois ambientes: em modelos de células cancerígenas 3D em laboratório e em modelos animais com ambos os tipos de tumores primários (melanoma e câncer de mama) e suas metástases cerebrais. Os resultados mostraram que as nanopartículas direcionadas à P-selectina acumularam-se seletivamente em tumores primários e não prejudicaram tecidos saudáveis. Além disso, as nanopartículas penetraram com sucesso a barreira hematoencefálica, atingindo metástases cerebrais com precisão, sem danificar o tecido cerebral saudável.
Além disso, a combinação de dois medicamentos administrados simultaneamente foi muito mais eficaz do que a administração separada, mesmo em doses 30 vezes menores do que em estudos pré-clínicos anteriores. O tratamento com nanopartículas reduziu significativamente o tamanho do tumor, retardando em 2,5 vezes o avanço da doença em comparação aos tratamentos convencionais, além de prolongar a vida útil dos camundongos, tendo em vista que os camundongos que receberam tratamento por meio das nanopartículas apresentaram sobrevida mediana duas vezes maior em comparação com aqueles que receberam os medicamentos livres e sobrevida três vezes maior em comparação com o grupo de controle. A Figura 1 ilustra a comparação entre as medicações administradas isoladamente e em conjunto, com auxílio da nanopartícula.
Figura 1: Representação esquemática da redução tumoral induzida por tratamento combinado com dois fármacos (fonte: elaborado pelo autor).
A partir do trabalho apresentado aqui, é possível concluir que a nanotecnologia está transformando o tratamento contra o câncer, permitindo abordagens mais precisas, menos invasivas e mais eficazes, facilitando o tratamento diário dos pacientes e oferecendo uma esperança real de melhora na qualidade de vida e aumento das chances de cura, marcando um novo capítulo na luta contra essa doença.
Quer saber mais? Acesse o artigo em: DOI: 10.1126/sciadv.adr4762
